Este relatório examina os desafios e as oportunidades para transformar os sistemas de coleta e reciclagem nas cidades brasileiras, apresenta uma visão compartilhada de como esses sistemas podem ser até 2040 e identifica as ações necessárias para chegar lá. O documento se encerra com uma chamada à ação específica para formuladores de políticas públicas, municípios, empresas, organizações de catadores, instituições financeiras e filantropias.
Parte de um cenário mais amplo: a Agenda Plásticos 2030
Combater a poluição por plásticos exige ação em todo o sistema. A Agenda Plásticos 2030 para Empresas, da Fundação Ellen MacArthur, identifica três barreiras sistêmicas que precisam ser superadas para enfrentar a poluição plástica em escala: ampliar sistemas de reutilização, enfrentar os resíduos de embalagens flexíveis e solucionar as lacunas nos sistemas de coleta e reciclagem. Cada uma delas exige uma resposta específica. Este relatório concentra-se na terceira.
Infraestruturas de coleta e reciclagem bem estruturadas são um elemento permanente e indispensável de qualquer economia circular, mantendo materiais em uso e fora do meio ambiente. Atualmente, em muitos lugares, esses sistemas não existem na escala necessária. As consequências se manifestam todos os anos, com milhões de toneladas de plástico vazando para ecossistemas terrestres, de água doce e marinhos.



Um esforço colaborativo
Fechando o Ciclo é resultado de um processo colaborativo de seis meses liderado pela Fundação Ellen MacArthur e pela Clean Rivers. O trabalho reúne contribuições de mais de 80 stakeholders de toda a cadeia de valor da gestão de resíduos no Brasil — formuladores de políticas públicas, organizações de catadores, empresas, academia, ONGs, organizações intergovernamentais, instituições financeiras e filantropias. Suas contribuições conferem ao relatório tanto embasamento analítico quanto ambição prática, apoiando-se em extensa pesquisa de dados e em um amplo processo de engajamento realizado em diferentes regiões do Brasil, incluindo entrevistas, workshops e visitas de campo.


A situação atual do Brasil
O sistema de gestão de resíduos do Brasil apresenta pontos fortes importantes, mas também lacunas estruturais significativas. A coleta atende aproximadamente 92,4% da população, e o país conta com um amplo arcabouço nacional de políticas para a gestão de resíduos. No entanto, cerca de 26% dos resíduos sólidos urbanos coletados ainda recebem destinação inadequada. Embora 36% dos resíduos sólidos urbanos sejam compostos por materiais recicláveis, menos de 9% chegam efetivamente à reciclagem. Estima-se que, todos os anos, 3,5 milhões de toneladas de resíduos plásticos sejam gerenciadas de forma inadequada, das quais aproximadamente 1,3 milhão de toneladas entram em sistemas de drenagem, acumulam-se nos rios e acabam ameaçando ecossistemas terrestres, de água doce e marinhos, além das comunidades que deles dependem.
As consequências vão muito além da poluição visível. Há contaminação ambiental, impactos à saúde pública, custos climáticos e perda de materiais que poderiam ser recuperados. Todos os anos, materiais recicláveis avaliados em aproximadamente R$ 14 bilhões são enviados para aterros em vez de serem recuperados.
A desigualdade regional atravessa todo esse cenário. As regiões com menor capacidade de gerir resíduos adequadamente são também aquelas onde a Amazônia, o Pantanal e outros ecossistemas de importância global sofrem os maiores impactos ambientais.
Por trás desses números existe uma história humana. Estima-se que cerca de 800 mil catadores já sustentem o sistema de reciclagem brasileiro, recuperando a maior parte dos materiais recicláveis do país, em grande medida sem reconhecimento formal ou remuneração justa. Sem os catadores, o sistema de reciclagem, tal como existe hoje, não funcionaria. No entanto, essa contribuição ocorre a um custo humano significativo. Embora avanços estejam sendo feitos, o ritmo precisa acelerar nos termos definidos pelos próprios catadores: melhores condições de trabalho, remuneração mais justa pelos serviços prestados e acesso a benefícios sociais e fontes de renda estáveis.


Uma visão compartilhada para 2040
Por meio do processo colaborativo que deu origem a este relatório, a Fundação Ellen MacArthur, a Clean Rivers e mais de 80 organizações cocriaram uma visão compartilhada do que os sistemas de gestão de resíduos e reciclagem das cidades brasileiras podem alcançar até 2040 — uma visão ambiciosa, mas viável em diferentes contextos locais.
Essa visão está centrada em seis resultados:
O relatório apresenta um framework composto por nove módulos para a transformação sistêmica, relaciona esse framework a quatro arquétipos de cidades que refletem a diversidade regional brasileira e identifica as ações específicas necessárias em cada parte do sistema.



Chamadas à ação
Superar as lacunas estruturais exige uma transformação coordenada em toda a cadeia de valor — e que todas as partes do sistema avancem juntas. O relatório apresenta chamados à ação direcionados para:
Formuladores de políticas públicas e órgãos reguladores;
Municípios e concessionárias;
Domicílios e grandes geradores;
O ecossistema de catadores;
Recicladores, produtores e compradores de materiais reciclados;
Agentes viabilizadores do sistema, incluindo instituições financeiras e filantropias.

Esse é o começo, mas não o fim
Este relatório representa a primeira fase de um esforço de transformação de longo prazo. Não se trata de um roteiro operacional prescritivo nem de um modelo definitivo ou universal, mas sim de uma base para esforços colaborativos, fundamentada no contexto brasileiro, destinada a construir entendimento compartilhado e orientar os próximos passos. A intenção é testar e aprimorar a transformação sistêmica em nível municipal, com foco especial no desenvolvimento de mecanismos sustentáveis de financiamento, utilizando os aprendizados obtidos para apoiar a ampliação em escala nacional por meio de mudanças de políticas públicas. A abordagem desenvolvida aqui foi concebida para ser adaptável a outros países e contextos.









